Vanguarda, criatividade e inovação na palestra do chef Andoni Aduriz

Hoje teve palestra do chef Andoni Aduriz lá na Anhembi Morumbi da Vila Olímpia (eu tinha dado a dica semana passada aqui no blog).

Evento gratuito, auditório lotadíssimo, conteúdo de qualidade. Mas não se preocupe, se você não foi, te conto tudo o que teve por lá (hum, tô me achando o Ai Morri de Sunga Branca…)

Desculpem pela foto, foi a única que eu (que não tenho credencial de mídia) consegui tirar...
Desculpem pela foto, foi a única que eu (que não tenho credencial de mídia) consegui tirar…

Tenho que dizer que fiquei maravilhada com a palestra do cara. Muito mais do que simplesmente falar sobre cozinhar, exaltar as suas técnicas e expor ingredientes incríveis, o chef Aduriz trouxe conceitos muito importantes para a vida.
Esse post vai ser uma mistura dos conceitos dele, com as reflexões que eu fiz inspiradas por ele… Se alguém tiver alguma dúvida, pode me falar que eu vou adorar conversar sobre o tema…

Pra quem não conhece ou nunca ouviu falar dele, Andoni Aduriz é o chef do Mugaritz, restaurante do País Basco com 2 estrelas Michelin e considerado o sexto melhor do mundo pelo ranking da San Pellegrino.

Eu não tive a chance (ainda) de conhecer o restaurante dele, mas tenho que dizer que a inteligência, ousadia e simplicidade dele me fizeram colocar o Mugaritz na minha lista de prioridades da vida.

Vanguarda, criatividade e inovação, foram os três conceitos abordados pelo chef durante a apresentação. Mas esqueça o foco unicamente na cozinha: o chef usa esses conceitos de forma universalista, para que possam ser aplicados na sua vida e não em uma profissão específica.

Ele abriu a sua palestra com uma provocação e uma reflexão: Você se considera uma pessoa criativa ou não? Se não, como podemos ser mais criativos?

A resposta, que parece ser óbvia, tem muitos desdobramentos se pensada de maneira mais profunda: “Pensando de forma criativa” e “Fazendo as coisas por repetição”.
Muitos de nós não paramos para pensar nisso, e seguimos as nossas vidas no automático, mas você realmente pensou de forma criativa no seu dia hoje?
Para te ajudar a responder essa pergunta, uma frase que é atribuída à Einstein, mas que não se sabe ao certo a autoria, em livre interpretação: “Não espere resultados diferentes se faz sempre o mesmo…”

Sendo a criatividade uma coisa que se pratica, que se aprende com a repetição, uma decisão que se toma, segundo o chef, não há desculpas para não ser criativo.

Pensando que a falta de criatividade pode ter um pé no conformismo, no gosto pelo tradicional e na confiança que isso lhe traz, o chef levou o assunto para a cozinha comparando a desconfiança com a comida tradicional.

A desconfiança existe no homem para evitar riscos, como forma de lhe salvar a vida. Assim também foi a alimentação por muitos anos, cheia de riscos. Você não poderia ingerir livremente qualquer alimento sem o medo que o mesmo estivesse envenenado. O conceito de comida segura é recente, segundo o chef (se bem que eu discordo dele neste ponto. Hoje, a maioria das comidas só não te fará morrer imediatamente, mas pode ir te matando lentamente…) E isso leva o homem a ter preferência pela primeira comida que provou na sua vida, a comida de sua mãe ou sua avó, que não apresentam riscos, e que provavelmente são comidas tradicionais.

A mesma coisa se dá com o gosto. O gosto é uma construção cultural, você foi ensinado desde pequeno o que é bom ou ruim, o que se deve ou não comer. Por isso, o gosto é cultural…
E por isso também, devemos nos desafiar a experimentar coisas que não agradam ao nosso paladar, para nos ajudar a perder o gosto excessivo pelo tradicional, deixar a desconfiança e o conformismo de lado e ter mais… CRIATIVIDADE!

Além disso, há uma infinidade de elementos, como cultura, como você está se sentindo no momento, fatores hormonais, que te fazem decidir por um alimento ou outro; sentir mais o gosto x ou o y, como foi apresentado pelo chef no The Candy Project (http://thecandyproject.org/), um projeto de pesquisa que deseja entender melhor sobre hábitos alimentares, costumes e culturas através dos doces consumidos… Vale a pena ver o vídeo e dar uma fuçada no site. Dá até para participar!

Vanguarda

Depois da abertura com conceitos e como ser criativo, o chef trouxe o tema Vanguarda à tona e eu tenho que dizer que a sua primeira definição de vanguarda me arrepiou, e me fez pensar muito…

“Primeira fila de um exército”. Ou seja, todos morrem…

E vanguarda, mas vanguarda de verdade, não é isso mesmo? Apresentar conceitos tão avançados, tão impensáveis até o momento, que ninguém entenderá e a sua ideia provavelmente morrerá, ou existirá de forma pequena, até alguém te copiar e isso não ser mais vanguarda?
Esse foi outro conceito novo de vanguarda que o chef apresentou. E que me surpreendeu.
“As vanguardas comem a si mesmas. Funcionam até a próxima”.

Pra mim faz todo o sentido. Quando é de vanguarda, é diferente demais pra ser aceito, mas quando alguém faz igual, já não é vanguarda… Meio doido o papo, mas deve ser por isso que é tão difícil, ou porque as pessoas se sentem tão desencorajadas a fazerem algo realmente novo…


(Neste vídeo, também apresentado pelo chef, Dalí é questionado do porquê de ter patrocinado determinada expedição. E ele responde: “Porque eu sou como Robespierre… Robespierre estava um dia em um café e viu um grupo de pessoas correndo rapidamente. Ele saiu do café e começou a correr na frente das pessoas. Quando perguntado porque fizera isso, ele respondeu… Eu não sei porque fiz, mas é porque sempre estou à frente de tudo o que é feito…”)
*Tradução livre

“Não sei aonde vou, só sei onde não quero estar.”(Frase atribuída à Kurt Cobain.)

E essa é a grande magia da vanguarda. Não se sabe onde se chegará com ela, mas também não dá para ficar parado, alguma coisa tem que ser feita…

Mas então, o que é a inovação, frente à criatividade e à vanguarda?

Inovação, segundo o chef, é quando você consegue transformar criatividade e vanguarda em realidade.

E de inovação o chef entende bem, como mostra este vídeo, do processo de transformação de uma simples receita em algo industrial, acessível para todos.

Mas voltando ao assunto inicial, como se dá então o processo criativo?

Segundo o chef Aduriz, a primeira coisa a ser considerada, e que é uma excelente notícia, na minha opinião, é que o ser humano é mimético, ou seja, imita ou reproduz comportamentos. A chave para ter uma equipe criativa, pessoas criativas, é criar ecossistemas criativos, rodear-se de pessoas criativas, com boas ideias.
Se você deseja um contexto de criatividade, inovação, provoque isso. Mantenha um ambiente propício para isso. Motive a sua equipe.

No Mugaritz, o processo criativo se dá através de diversos panoramas, como registros do paladar, viagens pelo mundo, encontros, conversas e testes.
É, não dá mesmo para não aguçar a criatividade, mantendo ou fazendo essas cinco coisas. Já pensou em como a gente volta diferente de uma viagem, ou como nos sentimos bem e com novas ideia depois de encontros com amigos? Como temos ideias do nada, só de olhar para uma foto antiga?
Como ele disse, não tem desculpa para não ser criativo…

E quais são as ferramentas para a criatividade?

– Ter a mente sempre afiada
– Ter visão criativa
– Se você não está disposto a descobrir, não vai descobrir
– A criatividade não é tanto onde se quer chegar, mas estar atento para as coisas que irão acontecer no caminho
“Lo que todo el mundo sabe en la Bolsa, a mi no me interesa” André Kostolany

Para se ter uma ideia de como o processo criativo é levado a sério no Mugaritz, a equipe do chef conta com profissionais que vão muito além da cozinha, como filósofos, artistas, músicos, coreógrafos.
E ele explicou também a importância da descontextualização, ou seja, enxergar possibilidades para um ingrediente ou para um prato em um diferente contexto…

“A verdadeira viagem de descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, e sim em ter novos olhos.”Proust

Para terminar, o chef traz a importância de contar histórias: “As pessoas se lembram do que você as faz sentir…””

É, chef, pode ter certeza que você me fez sentir muitas coisas, e me inspirou para coisas na vida que não tem nada a ver com a cozinha. Obrigada!

Você pode saber mais sobre o chef e o Mugaritz no canal deles no Youtube.

Bora praticar a criatividade, pessoal!

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