Rancho Nordestino: Quando a Internet não ajuda


Sua vida tem trilha sonora? Essa é uma das músicas da trilha sonora da minha vida. De tempos em tempos, eu fico com essa música na cabeça. Como gosto dela!

Uma das tarefas de um blog pequeno como o Magali é procurar assuntos sobre os quais ninguém está falando.
Se você abrir agora os grandes blog de gastronomia de SP, todos falarão mais ou menos dos mesmos assuntos, dos mesmos restaurantes, frequentarão os mesmos lugares.
E é normal, já que as pessoas querem ler sobre novos restaurantes e lugares famosos.

Mas tem coisa que ninguém tá falando, né? E aí eu procuro esses lugares para trazer aqui pra vocês.

+ Conheça o El Nuevo Sabor Latino: um peruano desconhecido no Bom Retiro + 

Nessa minha busca, eu costumo ler de tudo. Todos os blogs de gastronomia, revistas, assisto programas de TV, recebo indicações de amigos, e vejo até comentários do Yelp, Trip Advisor e sites do tipo.
E vi um lugar que todo mundo falava bem, o tal do Rancho Nordestino. Lugar simples, comida autêntica, preço bom, fora da rota, era o que estava escrito.
Deve ser bom, pensei, e coloquei nos meus to-dos profissionais do final de semana.

Minha família é nordestina. Meus pais são alagoanos e apesar de ter nascido e vivido aqui em SP toda a minha vida, tive a sorte de viajar para o Nordeste todos os anos da minha infância, em uma longa jornada de carro onde eu tive o prazer de conhecer recantos escondidos do país, comida caseira e simples, ver uma realidade muito distante da minha e aprender mais sobre este Brasilzão de meu Deus.
E mesmo sendo criança, comer era uma das partes mais legais da viagem. Desde os PFs simples da estrada, as comidas maravilhosas que a minha avó fazia em Maceió, até perder uma buchada de bode no sertão alagoano ou torrar castanha de caju que havia acabado de sair do pé. Vivi tudo isso até os meus 16 anos.

Mas não era só em janeiro que eu tinha a chance de comer a comida de lá, não. A minha mãe sempre cozinhou as comidas da terrinha e no café da manhã de domingo em casa não podia faltar macaxeira, inhame, carne cozida e cuscuz.
Aprendi desde cedo a comer a comida nordestina simples, feita em casa. E de verdade, como eu gosto disso!

+ Aprenda a fazer um Escondidinho de Legumes, o favorito dos vegetarianos + 

Então pra mim, ir conhecer um restaurante nordestino é quase como quando um expatriado volta para casa depois de muitos anos: um retorno às origens.
E não conheço muito lugares em SP que fazem uma boa comida nordestina não, pra falar a verdade.

O Rancho Nordestino fica na Bela Vista, no limite do Bixiga, bem pertinho de onde acontecem aquelas festas italianas enormes.
Domingo à tarde, lá pelas 15h, Dia dos Pais, ainda estava cheio. O lugar fica aberto sem pausas entre o almoço e jantar.

- Fachada do Rancho Nordestino -
– Fachada do Rancho Nordestino –

Entramos e o garçom nos direcionou para o piso de baixo, maior, já que o de cima não tinha lugar.
Depois de descer umas escadas íngremes, chegamos na masmorra em um cômodo bem desconfortável. Um salão grande, sem nenhuma janela ou escapes de ventilação, pouca iluminação, TVs ligadas com volume alto e muita gente. Não era bem o que eu esperava para o almoço de domingo. E não é questão de ser fresca ou chata não. Era extremamente desagradável comer lá.

Mas eu queria muito provar a comida. Então pensei em duas alternativas: levar pra comer em casa, ou sentar no piso de cima.
Quando já estava quase fazendo o pedido da minha quentinha, vagou uma mesa e nós sentamos no andar de cima, que é pequeno, simples e barulhento, mas não incomoda em nada e você pode fazer a sua refeição tranquilo e feliz.

- Ambiente do piso de cima. Aconteça o que acontecer, não sente no piso de baixo -
– Ambiente do piso de cima. Aconteça o que acontecer, não sente no piso de baixo –

Enquanto eu esperava a minha mesa ser limpa, fiquei de olho nos pratos das pessoas. As porções eram enormes e parecia bem apetitoso.

Estava dirigindo, então dei um tempo na cerveja e pedi uma Tubaína, para lembrar os finais de semana que passava em família no sítio de Itapecerica da Serra, comendo churrasco, tomando tubaína e brincando com os cachorros enquanto meu pai inventava de subir uma nova laje ou fazer um portão novo.

No cardápio, itens bem tradicionais, como Baião de Dois, Carne de Sol, Mocotó e Sarapatel.
Pedimos um Baião de Dois com Carne de Sol e uma Casquinha de Siri para começar.

O baião logo chegou: arroz, feijão de corda, queijo de coalho, torresmo e um belo bife de carne de sol em cima. Tenho o olho maior que a boca e a mensagem que meu cérebro recebeu quando vi aquilo na mesa foi: “Caramba, você vai comer muito bem”, mas quando dei a primeira garfada, vi que o prato não passava disso: arroz cozido, feijão de corda cozido e o queijo de coalho, tudo feito separado e depois misturado, sem nenhum tempero, nenhuma profundidade de sabor, sem graça, coisa que o nordestino não é muito, né?

- Continuo à procura do baião -
– Continuo à procura do baião –

Umas poucas folhinhas de coentro em cima, um pouco de manteiga de garrafa que estava à mesa e muita pimenta foram a salvação. Só assim para o Baião ter um pouco de sabor e graça.

- Taca pimenta e manteiga de garrafa em cima -
– Taca pimenta e manteiga de garrafa em cima –

O bifão de carne do sol estava macio, gostoso, suculento. Foi nele que me apeguei neste almoço.

Chegou a casquinha de siri. A cara dela já era meio diferente, com o recheio meio compacto, pesadão. Ao provar, vi que nada mais era do que um pirão mais pesado, com bastante farinha e pouco gosto de siri. Pra dar “sustança” mesmo.

- Casquinha de pirão -
– Casquinha de pirão –

No final, o almoço que eu tanto esperava, pra comer uma comida da terrinha e contar pra vocês de um lugar “desconhecido” foi uma decepção. Não estava ruim, de jeito nenhum, mas faltava tempero, sabor, personalidade.

+ Saiba onde comer uma boa feijoada em SP +

Estava frio de sal, e de emoção, como dizia a minha avó!

Rancho Nordestino (http://www.ranchonordestino.com.br/)
Rua Manuel Dutra, 498 – Bela Vista – SP – (11) 3106-7257 – Metrô mais próximo: Trianon-Masp (1,3km)
Terça a quinta e domingo, das 12h à 01h; sexta e sábado, das 12h às 03h.
Gastamos cerca de R$ 65. É barato, mas podia ser bem melhor.

Sei que um dos objetivos de um blog é dar recomendações. Mas, quando eu precisei delas, a Internet me decepcionou. Pessoal do Trip, discordo de vocês.
Ainda não descobri um lugar de comida nordestina top e tradicional em SP, mas quando eu descobrir, prometo que conto pra vocês!

4 comments

Comments are closed.