Cooked: Documentário que Todo Apaixonado Por Comida Deveria Assistir

Eu adoro o Netflix. É meu companheiro de noites, finais de semana e de alguns almoços. E vivo procurando coisas novas para assistir por lá. Foi assim, em uma dessas buscas que eu descobri Cooked, um documentário sobre comida que devorei (com o perdão do trocadilho) em um sábado e que todo apaixonado por comida deveria assistir.

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Se você é realmente apaixonado por comida e por Netflix, já deve ter assistido à essa série. Mas se ainda não assistiu, está perdendo um divertimento bacana e um baita aprendizado.

Cooked é uma série criada por Michael Pollan, um autor, jornalista e professor de Berkeley que diz que as pessoas devem desenvolver consciência sobre o que comem.
Ele já publicou oito livros e em todos eles, traz uma visão consciente, abrangente e completa sobre a alimentação e os efeitos dela na vida das pessoas.

Depois de ler isso, você deve estar pensando que o seriado deve ser um saco, só falar sobre comida saudável e dar lição de moral em você que quer comer muito no final de semana, acertei?

Mas não é nada disso. Se tem uma coisa que eu gosto do Pollan é que o cara realmente tem prazer em se alimentar e em cozinhar e isso inclui comidas gordurosas, bebidas alcoólicas e doces. Mas o que ele mostra no seriado é como o alimento faz parte de uma cultura, de um ecossistema completo e que entender isso mostra que o mesmo não pode ser tratado apenas como fonte de nutrientes e calorias.

Ele também aborda o caminho que a comida faz da produção à mesa e tenta incutir nas pessoas o desejo de saber de onde vem seus alimentos, como eles são feitos, porque são daquele jeito e enfim, como você pode usá-los de maneira integral, cozinhando.

Além de falar de comida, Cooked é uma verdadeira viagem por diferentes culturas, trazendo lindas histórias e ótimas imagens de lugares como a Austrália, Peru, Marrocos, Estados Unidos e Índia.

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O seriado é dividido em quatro episódios: fogo, água, ar e terra, e você pode assisti-los da forma como preferir.

O meu episódio favorito é, provavelmente, o do ar, em que ele fala sobre o pão e sobre fermentação natural, mas todos os episódios são lindíssimos e muito interessantes.

Pra começar, a fotografia e a composição visual do seriado é incrível. Trata o alimento como uma obra de arte, mas sem falar de alta gastronomia. Mostra o melhor de cada alimento em sua simplicidade, sem precisar de preparos complicados e cifras absurdas.
Se você acha Chefs Table bonito (que eu também acho e adoro), vai pirar muito mais com o Cooked.

Vou dar uma visão geral de cada episódio, sem nenhuma pretensão de chegar perto às análises que Pollan faz, mas prometo – mesmo – que não darei spoilers.

O primeiro episódio, dedicado ao fogo, mostra como comunidades aborígenes da Austrália dominam o fogo queimando a própria terra para obter pequenos animais, como répteis para depois serem transformados, pelo fogo, em alimento.
Este episódio mostra também que o homem é a única espécie que cozinha, logo, isso é uma das coisas que nos torna humanos.

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Áreas queimadas pelos aborígines australianos como uma forma de conseguir alimentos

 

Neste primeiro episódio também há algumas reflexões importantes, como o aumento do número de programas de culinária versus a diminuição de tempo e frequência com que as pessoas cozinham, a terceirização do ato de cozinhar, a caça, a origem e o respeito à carne, a diferença de um animal criado para o abate por grandes corporações e do criado de forma respeitosa e como isso se reflete no sabor e na qualidade da carne, as consequências de um mundo completamente vegetariano, e como ao nos desligar das tradições culinárias, acabamos perdendo coisas essenciais para o nosso bem-estar.

O episódio termina com um grande porco inteiro sendo assado por Pollan e um amigo e duvido que você não desejasse estar ali, compartilhando daquele momento e daquela comida.

O episódio seguinte, água, talvez seja o mais importante para que possamos refletir sobre os nossos hábitos alimentares e as escolhas que fazemos com a nossa alimentação.
Ele mostra como a falta de tempo tornou opcional o ato de cozinhar e como isso faz com que as pessoas escolham atalhos, geralmente comida processada, pronta e congelada, para colocar em suas mesas todos os dias.

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Segundo episódio, sobre a água

 

Para se ter uma ideia, hoje o americano passa em média 27 minutos por dia cozinhando. Em 1965, eram gastos 60 minutos na preparação de alimentos. São eles, os americanos, o povo que passa menos tempo cozinhando do que qualquer outro povo do mundo.

Porém, até 1980, não haviam crianças com diabetes tipo 2, considerado uma doença exclusiva para adultos. E o que vemos hoje são milhares de crianças desenvolvendo a doença.
Coincidência? Não! Já foi comprovado que as taxas de obesidade crescem de maneira inversamente proporcional ao tempo que gastamos cozinhando, ou seja, quanto menos se cozinha, mais cresce o número de obesos. É alarmante.

O episódio água também mostra como a publicidade moldou o nosso hábito e nossas preferências alimentares. São exibidas algumas propagandas dos anos 60 e 70 que podem nos parecer absurdas hoje, mas que na época faziam total sentido. Em várias delas, dizia-se que a comida processada chegava para salvar as pessoas dos horrores da comida caseira. Bizarro, né?
Mais bizarro é saber que nos Estados Unidos a indústria de alimentos processados cresceu pela necessidade de escoar a produção após o final da Segunda Guerra, já que essa comida era produzida para alimentar as tropas e como não havia mais tropas, era só dar essa comida para a população em geral.

O interessante é que Pollan diz que ele não quer convencer e nem obrigar as pessoas a cozinhar. Ele quer atrai-las pelo prazer de cozinhar. Eu duvido que você não queira cozinhar depois de assistir esse episódio.

E o que ficou de mais importante e que se tornou quase que um mantra para mim é o que um estudioso diz durante este episódio. Ele diz que você pode comer o que quiser, mesmo que seja torta com bolo com cookie com sorvete. Coma o que você quiser. Desde que você faça todas essas coisas.

Em seguida, começa o terceiro capítulo, o do ar, o mais bonito na minha opinião.
Nele, Pollan vai mostrar como o ar é essencial para alguns alimentos, principalmente para o pão, que é um processo belíssimo e totalmente possível de ser feito em casa.

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Pão, a estrela do episódio sobre o ar

 

Indico esse episódio para as pessoas que escolhem não comer glúten. Não as celíacas, mas as que acreditam que o glúten é um grande vilão. Assistam e entenderão.

Ele também dá um panorama histórico de como o pão e o trigo estão ligados à economia, guerra e revoltas populares.

Mostra, ainda, um “cientista maluco” em Massachussets que faz o pão de maneira bem rudimentar e que tem teorias interessantes sobre o alimento, como que diz que a fermentação natural é a chave para uma boa saúde.

Enfim, Pollan mostra a importância de fazer o seu próprio fermento e de assar seu próprio pão. E eu tenho certeza que esse episódio instigará muitas pessoas a incursões no mundo da panificação caseira.

O derradeiro episódio fala sobre a terra de maneira esplendorosa.
O ponto alto deste episódio, para mim, é toda a experiência que ele vive com uma freira americana que faz queijos de forma artesanal. Já coloquei o monastério dela no meu próximo roteiro de viagem aos Estados Unidos, pois nunca vi uma produção de queijos tão rústica, cuidadosa e que parece tão deliciosa.

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Chocolate, um dos alimentos fermentados do episódio Terra.

 

O episódio Terra é todo dedicado à fermentação. Chocolate, salame, chicha peruana, vinho, cerveja, ketchup… você sabia que todos esses alimentos são fermentados? E mais, que 1/3 de todos os alimentos de nossa dieta são produzidos por esse método, com a ajuda indispensável de bactérias e fungos?

Nele, você vai ver a produção de alguns dos alimentos que você mais gosta, como o queijo, que já citei acima, e o chocolate, em uma fazenda de cacau no Peru.
É uma excelente forma de acabar o seriado, ainda mais com a frase dita por Pollan no final: “(…) Pois existe hábito menos egoísta, trabalho menos alienado, tempo menos desperdiçado que preparar algo delicioso e nutrir as pessoas que você ama?”

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Como o Pollan, eu não espero que você passe a cozinhar todas as noites em sua casa, mas espero do fundo do coração que você repense alguns de seus hábitos de alimentação e consumo, e que você possa reencontrar o prazer de cozinhar! Assista!

 

Quais outros seriados de comida você indica? Deixe suas dicas aqui na caixa de comentários.

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