As Lourdetes: Comida Mexicana de Verdade

Se tem uma culinária que é quase unanimidade no gosto das pessoas, é a mexicana. E mesmo assim, é quase impossível encontrar lugares que preparem comida mexicana boa de verdade, sem invencionices toscas de tex-mex.

méxico
Seja bem vindo ao México

Eu estive na Cidade do México duas vezes em 2011 e pude provar a excelente culinária local em lugares de diversos perfis: desde pequenas casas de tacos al pastor até restaurantes premiados da época.
Por mais que apresentassem culinárias distintas e de diferentes regiões do México, em nenhum deles eu provei algo parecido com o que temos por comida mexicana aqui no Brasil. Até o último domingo.

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É que eu fui conhecer As Lourdetes, as discípulas de Lourdes Hernandéz que criaram este novo projeto depois que ela foi embora do Brasil.

dichos mexicanos
A la mesa y a la cama, sólo una vez se llama…

Pra quem nunca ouviu falar de Lourdes Hernandéz (shame on you), também conhecida como “la cocinera atrevida”, ela é uma cozinheira mexicana que veio morar no Brasil junto com o marido e decidiu abrir as portas de sua casa para receber desconhecidos interessados na boa cozinha mexicana. Isso pode soar meio comum hoje, mas em 2009, auge do projeto, era realmente inovador.
Havia toda uma mística em torno da Casa dos Cariris, o espaço onde ela promovia esses jantares e também alguma dificuldade em conseguir fazer parte da lista dela. Eram só amigos, amigos de amigos, amigos de amigos de amigos, e por aí vai.
Eu tinha alguns amigos na época que foram e que poderiam me indicar para participar do próximo, mas por algum motivo, nunca fui.
Lourdes foi embora do Brasil, mas deixou aqui As Lourdetes, meninas queridas que foram treinadas por ela.
As Lourdetes - Mesa - Magali Viajante
As Lourdetes são Katerina Kaspar, Luísa Assumpção e Karen Gronich. Elas tem empregos fixos, mas levam a cozinha como um projeto paralelo que a gente torce para que se torne de período integral.
Já estávamos trocando emails a algum tempo e elas nos convidaram para participar do almoço que aconteceu no domingo.
as lourdetes
A primeira diferença é que elas fazem almoços e não jantares. A casa também será diferente a partir de agora, já que a encantadora Casa dos Cariris está com a estrutura comprometida e não pode ser usada. Essa chance você perdeu. Mas logo as meninas estarão com um espaço novo e poderão construir uma nova história.
Também não rola mais a dificuldade dos convites. Hoje elas postam o evento no Facebook delas (e elas sempre estão também entre as dicas do Amuse Bouche, fique de olho), você reserva sua vaga, vai lá e aproveita.

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Chegamos ao endereço indicado no horário combinado, às 13h e encontramos uma rua pequena com ares de interior com casas sem nenhuma identificação. Conferimos o número, tocamos a campainha e lá estava a sorridente Karen para nos atender.

casa dos cariris
A mítica Casa dos Cariris

A Casa dos Cariris (e mesmo ela não existindo mais, tenho a impressão de que elas acharão um espaço com a mesma vibe, por isso descrevo aqui para vocês) parece a casa bacana de sua avó. Confortável, espaçosa, antiga e muito charmosa. Logo na varanda, um sofá e uma rede pra você já se sentir em casa.

as lourdetes
Sinta-se em casa!

Na grande sala, algumas mesas compartilhadas, justamente para você aproveitar toda a experiência de conhecer gente nova.
A cozinha também é de casa: nada profissional e muita coisa improvisada. Sem aquele ar de superioridade que as cozinhas de restaurante tem. Você pode ir lá, cumprimentar as meninas e ainda dar uma olhada no que elas estão preparando.

as lourdetes
A cozinha da Casa dos Cariris

Pequenos detalhes fazem toda a diferença aqui: toalhas floridas, garrafas de tequila sendo utilizadas como vaso de flor, louças coloridas e porta guardanapos de palha. Tudo meio kitsch, meio descombinado, com o charme despretensioso de uma casa de verdade.

As Lourdetes - Detalhes - Magali Viajante
Detalhes tão pequenos de nós dois…

O cardápio do dia tinha cinco tempos (R$ 85 por pessoa): um aperitivo, duas entradinhas, um principal e uma sobremesa. O tema do dia era Menu Borracho, com todos os pratos levando alguma bebida alcoólica na composição
Para beber, drinques como michelada e margaritas e diversos tipos de mezcal.

as lourdetes
Menu Borracho

Pedimos uma Michelada (R$ 10) e uma Margarita de Mezcal (R$ 20) para abrir o apetite. Estavam ótimas, com bastante frescor.

michelada mexicana
Nossos drinques

O aperitivo foi o clássico Guacamole com Totopos. E se você gosta de guacamole, tenha certeza que daria para passar a tarde inteira comendo só isso. Com bom papo e cerveja, adoraria se aquela tigela tivesse fundo falso.

guacamole com totopos
Guacamole com Totopos: dá pra comer a tigela inteira

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Mas logo veio a primeira entrada e eu dei graças por não ter enfiado a cara no guacamole. As Enchiladas Suizas, enchiladas de frango com salsa verde e vinho, gratinada com queijos foram o prato preferido do Thiago.
Apesar de não terem a apresentação mais bonita do mundo, os sabores eram muito potentes e combinavam bem entre si e por mais que eu nunca tivesse comido algo com aquele sabor específico, conseguia distinguir de olho fechado que aquilo era comida mexicana.
Bem apimentado, mas no limite da razão, sem fazer ninguém chorar e com queijo apenas como um acompanhante para o frango e não dominando todo o prato.
O tipo de prato que é gostoso comer direto do pirex, sem vergonha.

enchiladas suizas
As enchiladas não são muito fotogênicas, mas são ótimas!

Em seguida, veio a Sopita de cebollas y bourbon con tortillas, que a princípio parecia pequena, mas fez todo o sentido para compor o cardápio completo.
Bem diferente da referência que temos de sopa de cebola (que normalmente é a versão mais afrancesada), ela era bem cremosa e com sabor suave, acompanhada de um pouquinho de sour cream e tortillas.
Novamente (como o queijo do primeiro prato), o sour cream aparece aqui apenas pra dar um toque e não pra colocar em cima de tudo.
Reconfortante!

sopa de cebollas
Sopita de cebollas

Partimos para o principal, Ternera de Arroz Verde e Frijol Borracho (pernil de vitelo marinado em chipotle, com arroz em salsa verde e feijão branco feito com cerveja e tequila).
Esse prato deixou claro para nós como o menu foi bem pensado e não apenas pratos “juntados” ao acaso. Isso porque todos os itens separados eram gostosos, mas não inesquecíveis, porém, quando você provava todos eles juntos, virava uma explosão de sabores, como diria o Rémy do Ratatouille.

ternera
Ternera con Arroz Verde y Frijol Borracho

Eu normalmente não curto muito vitelo, pois a tendência é que ele sempre seja servido ressecado. Mas aqui ele estava suculento, macio e banhado por um delicioso molho feito de chipotle.
Aliás, chegamos em um ponto. Comida mexicana pede uma boa pimenta. E quantas vezes já cansei de pedir pimenta em restaurantes mexicanos e recebi um vidrinho de Tabasco. Não deixe de pedir a pimenta das meninas. Comemos um chipotle muito bom, com bastante gosto e bem picante. O Thiago, que é fissurado em pimenta e tem boa resistência para o tema, comeu de colher, pura.
Mas não recomendo que você faça isso se for uma pessoa normal, ok?
O feijão branco também estava saboroso, feito com pedacinhos de bacon que conferiam um leve sabor defumado à eles.
O arroz também estava gostoso, mas na minha opinião foi o ponto mais fraco do menu, eu esperava o gosto da salsa verde mais pungente…
Este foi o meu prato preferido!

Mais uma Margarita, por favor! E uma água da Jamaica!

água de jamaica
Água de Jamaica: refrescante

Antes da sobremesa, o garçom ainda pergunta se você quer repetir alguma coisa, mas decidimos ir direto para o doce.

A sobremesa do dia era Pay de Queijo de Cabra y Higos con Miel de Maguey y Amaretto Dell Orso, uma torta de queijo de cabra com figos e mel do coração da planta que é feito o mezcal.
Uma torta simples de queijo de cabra, porém saborosa, mas a estrela era o Mel de Maguey y Amaretto, que segundo o Thiago, tinha um agradável amargor. Eu nem me atentei pra isso e já estava considerando seriamente lamber o prato, mas minha mãe me deu modos na vida.

maguey agave
Pay de Queso con Maguey

Pra finalizar o almoço, uma dose de mezcal, pois sabe como é, dizem por aí que é digestivo.
Não entendemos absolutamente nada da bebida e pedimos uma sugestão para a Karen. Ela explicou um por um direitinho (quem acompanha a Magali no Snap acompanhou) e decidimos provar o favorito dela, o Bruxo #2 Pechuga de Maguey Joven (R$ 25).

mezcal bruxo
Bruxo #2

Apesar do aroma bem potente de álcool, tomar este mezcal é bem agradável. Ele tem um punch bem forte quando encosta na língua, mas desce suave, escondendo os seus 46% de álcool.

mezcal
A saideira!

Terminada a experiência com As Lourdetes você perceberá que a comida de lá não é de restaurante e nem nunca vai ser. É comida de casa, feita por gente profissional, mas com um componente de carinho a mais e de ego e busca por prêmios a menos.

Não sei dizer se a comida delas é melhor, pior ou igual a de Lourdes. Mas acho que elas nem merecem essa comparação. O que As Lourdetes merecem sim é usar todo esse conhecimento que receberam da Lourdes e seguirem o próprio caminho, pois elas tem feito um trabalho espetacular.

as lourdetes
São essas bonitas aqui, as responsáveis por tudo isso

Siga As Lourdetes no Facebook pra ficar por dentro dos próximos passos das meninas: https://www.facebook.com/aslourdetes/

*A equipe do Magali Viajante almoçou à convite das Lourdetes.

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